Por Lara Barbosa*

Você provavelmente cruzou com algum manifesto “anti-IA” no seu feed essa semana.

Eles vêm fantasiados de valorização do trabalho humano, com uma estética bonita, analógica e cheia de poesia. E eu entendo o apelo. Eu também sou completamente a favor de valorizarmos o que é feito por mãos humanas.

Mas se a gente afastar o romantismo desse discurso por dois minutos e olhar para o mercado real, a verdade é bem mais incômoda: existe uma linha muito tênue entre defender o fator humano e usar o cansaço como desculpa para a alienação.

É too much você ser um profissional de comunicação hoje e encher o peito para dizer que simplesmente ignora a Inteligência Artificial. É extremismo. E, no limite, hipocrisia.

E não me entenda mal: a tecnologia tem um lado sombrio e urgente que precisa de debate. Na mesma proporção em que ela ajuda, ela destrói. Quantas mulheres têm suas imagens roubadas e manipuladas diariamente para gerar fotos falsas que violam suas integridades? Quantos protestos de designers, ilustradores e fotógrafos contra o plágio em massa que alimenta essas ferramentas precisam existir? A resistência artística é legítima. Isso é a ponta de um iceberg assustador.

Mas se o artista tem o direito e o dever de proteger a autoria, o gestor de comunicação, que lida com budgets, viabilidade e o futuro de marcas, não tem o luxo do apagão tecnológico.

Permita-se deslumbrar pelo o que a IA tem a te oferecer, mas não a se acomodar a ponto de achar que ela é a solução para todos os seus problemas. Problema humano é diferente de problema de máquina. Mas ambos precisam de mãos humanas para solucionar.

E o meu ponto aqui parte justamente da nossa postura profissional diante disso.

O dia em que precisei me olhar no espelho

Eu faço parte de uma associação de profissionais de propaganda. Nós organizamos palestras, debates e eventos para o mercado. E, recentemente, durante o planejamento dos nossos próximos encontros, eu soltei o argumento clássico:

“Gente, chega de IA. Não vamos colocar mais nenhuma palestra sobre isso. O público está exausto desse assunto.”

Parecia um pensamento óbvio. Mas quando cheguei em casa, ele ficou martelando na minha cabeça até virar uma autorreflexão dolorosa:

Eu estou dizendo que cansei de ouvir palestras sobre IA… mas eu sequer compreendo a fundo o impacto estratégico dessa ferramenta no ecossistema.

Como posso me recusar a entender a dinâmica de algo que está redefinindo o mercado, sendo que eu ainda tenho tanto para decifrar sobre as suas reais consequências?

A história nos mostra que a massa que se recusa a estudar é sempre a primeira a ser manipulada, descartada e esquecida. Quando adoto um discurso de negação cega a ponto de não querer entender o cenário, eu escolho a obsolescência.

A verdade sobre a nossa exaustão

A real é que a gente não cansou da Inteligência Artificial em si. A gente cansou do mau uso dela.

A gente cansou de investir quatro horas do nosso dia em um evento para ouvir cinco palestrantes diferentes repetirem, de forma quase robótica: “O segredo do futuro é saber fazer a pergunta certa”.

Tá. E o que eu faço com essa frase de efeito?

Quais são as aplicações reais no meu dia a dia de agência ou departamento de marketing?

Como isso otimiza processos reais e protege a integridade criativa?

O mercado cansou de papagaios vestindo alfaiataria, subindo em palcos de eventos caros apenas porque conseguiram acesso a um microfone para repetir conceitos óbvios que leram em um artigo rápido de internet.

Gourmetização do óbvio.

Se o seu receio é ver a comunicação perder o diferencial competitivo para a automação, use a sua maior habilidade humana: o senso crítico e o repertório de mundo. Selecione a quem você doa o seu tempo. Escolha a dedo quais informações e quais profissionais vão alugar os seus ouvidos.

Focar no repertório humano, nos livros, no cinema e na rua é onde mora o verdadeiro valor diferenciado. Mas não use o excesso de ruído do mercado como desculpa para estacionar a sua visão estratégica.

Compreenda o cenário, estude o impacto e ganhe bagagem real.

Só quem conhece a mecânica do monstro de perto tem a propriedade de decidir exatamente quando usá-lo e, principalmente, quando deixá-lo fora da mesa. O resto é barulho de quem preferiu fechar os olhos e papagaiar do outro lado da moeda.

*Lara Barbosa é publicitária, Estrategista de mídias sociais, Docente na Anhanguera Taubaté e Diretora Regional da APP Vale.